Relato de Alergia ao Látex com Diagnóstico Tardio

Descrevo aqui tudo que posso lembrar-me e possa vir a ter relação estabelecida com manifestações físicas que, hoje, sei serem devido da Síndrome Látex Alimentos, conhecida por Alergia Látex Fruta ou Síndrome Látex Fruta Vegetais, nomeada por mim de forma mais ampla devido a infinidade de alimentos relacionados por alérgicos ao látex de todo o mundo.

Saliento que muitas coisas custam a estabelecer relação devido ao tempo decorrido sem diagnóstico correto, a falta de literatura e de conhecimento a respeito e que, portanto, sendo eu leiga em medicina convencional (a não ser pelos tantos tratamentos e cirurgias a que fui submetida) não tenho nenhuma pretensão em apresentar trabalho científico, apenas de criar meios para esses, registrando informações que poderão vir a ter sua relação estabelecida, facilitando o diagnóstico e a compreensão dessa alergia que parece estar crescendo a medida que a utilização do látex também o faz.

Primeiros sintomas alérgicos

Nasci de cesariana em 1970. Fui amamentada por apenas um mês e criada com hábitos excessivos de higiene.

Durante toda infância tive constipação, chegando a ficar uma semana sem evacuar. Ao comer pipocas, passava 3 dias vomitando. Cólicas e dores de cabeça foram sempre presentes.

Em 1979, com 9 anos de idade, tive uma forte reação alérgica, com inchaço especialmente do rosto e da glote, pois havia tomado um xarope de um primo e foi diagnosticado como sendo alergia ao iodo.

Em três outras ocasiões, por uso indevido de iodo em exames no hospital, tive reações cada vez mais fortes.

Desde 1979, sentia fortes inchaços na cabeça, dores diagnosticadas como enxaquecas muito fortes, que me deixavam totalmente aturdida, com sensação de falta de oxigenação na cabeça. A cada dita crise de enxaqueca, passava uma semana com dores insuportáveis na cabeça e náuseas, algumas vezes acompanhadas de vômitos.

Em 1986, aos 15 anos de idade, dei a luz a um menino.

De 1986 em diante, passei por demasiados procedimentos ginecológicos, tendo feito cinco laparoscopias e três cirurgias, sendo que após a primeira laparoscopia – onde foi diagnosticado Endometriose – tive uma infecção de trompas, fiquei dois anos sem menstruar, com as trompas obstruídas, mas ainda com Endometriose, passando por histerosalpingografias e demais procedimentos constantemente. Em 1986, também, tive a primeira pneumonia durante a gravidez. Depois, após duas laparoscopias, tive pneumonia novamente.

Em 1994 fiz tratamento para indução à gravidez, ainda na busca pela cura da endometriose. Engravidei e passei por um abortamento espontâneo devido a toxoplasmose. Estava com 15 semanas de gestação.

No ano seguinte, 1995, tive a primeira crise de asma. (Refiro isso embora não entenda ainda bem essa relação, mas foi por esse fato que iniciei a conversa com meu ginecologista onde foi feito meu diagnóstico de Síndrome Látex Fruta Vegetais). E por essa época também, um pouco antes, passei a ter uma tosse seca muito forte e irritante, pela qual eu já era reconhecida, e que me causava, além do desconforto de tossir, muito constrangimento.

Depois disso, outra série de cirurgias.

Em 1998, nódulo da mama. Em 1999, histerectomia.

Em 1999, descobri também que tinha Glaucoma e estava ficando cega, tendo passado por 18 cirurgias nos olhos entre 2001 e 2009.

Diversas hipoglicemias acompanhadas de hipotensões, levando à perda de consciência, que em uma delas, no final do ano de 1999, me levou a uma isquemia leve e a ficar três meses internada no Hospital São Lucas- PUCRS, para investigação do caso e para fisioterapias. Nesse momento, foi dado como diagnóstico início de diabetes e a recomendação que segui, a risca, dali em diante foi de retirar totalmente o açúcar da dieta, o que provavelmente contribuiu para diminuição do contato com alguns dos alérgenos que mais adiante descobri ser o mais reagente em meus exames de IgE, o grupo das castanhas, pois o doce que sempre consumi mais foi o chocolate, e esse costuma ter sempre a presença de ao menos traços de castanhas. Durante onze anos não consumi açúcar, mas ainda chocolate diet, o qual parei por que me sentia mal quando comia e não identificava o por quê. Hipotensões, hipoglicemias, desmaios, enxaquecas, dores estomacais, cólicas, urticárias e pneumonias passaram a ser frequentes.

Em 2002, acidez gástrica dez vezes acima do normal, sangramentos digestivos, e a tosse seca foi diagnosticada como tosse por refluxo gastroesofágico e, após sangramento digestivo, passei por cirurgia de urgência para Correção de Hérnia de Hiato. Nesta época, vomitava quase tudo que comia.

Paralelamente, fui diagnosticada com glaucoma em estágio avançado em um dos olhos e evolutivo no outro, isso no ano de 2000. De 2001 à 2005 passei por oito cirurgias oculares em busca do controle da pressão intra ocular. Tinha dores incapacitantes nos olhos, na face e toda cabeça, sensação de que o crânio estava inchado. Edemas cada vez mais evidentes aos amigos, não eram percebidos ou valorizados pelos médicos.

Quanto mais tentava colírios, tratamentos e cirurgias oculares para o controle do glaucoma, pior ficava. E então, em 2001, fiquei totalmente cega do olho esquerdo. Em 2004, também do direito.

Em 2003, a acidez continuava, até havia aumentado. Diagnóstico de Intolerância a Lactose, nova Cirurgia de Correção de Hérnia de Hiato (às pressas) devido a sangramento digestivo por úlcera. Mesmo após cirurgia, muita acidez e necessidade de medicação para refluxo gastroesofágico.

Anemia, diarreias devido à Intolerância a Lactose sempre foram constantes, tendo passado com peso entre 44 e 48 kg (tenho 1,70 de altura). Estava sempre abaixo do peso para minha altura.

A cada cirurgia, passava mais mal. Eram tocados anestésicos, necessitava adrenalina e altas doses de corticoides, mas nunca me foi mencionado o termo “anafilaxia” ou houve encaminhamento para um alergologista investigar a(s) causa(s) das reações.

De 2005 em diante, depois de alguns tratamentos dentários, passei a ter crises cada vez mais frequentes de rinite e asma, muitas evoluindo para sinusites e pneumonias. Edemas, especialmente na face, passaram a chamar à atenção.

A tosse seca também estava mais forte e já se estabelecia relação direta por fatores que a desencadeavam, como corantes de alimentos amarelos (que também originavam diarreias), cerveja, vinho, sucos, molhos e muitas outras coisas.

Em 2007, após longas conversas com vários médicos, chegou-se a conclusão que eu não era diabética de forma alguma, e que as hipoglicemias teriam outra origem, talvez mais relacionadas à intolerância a lactose, então aos poucos voltei a ingerir açúcar e consequentemente chocolates, e as crises de asma passaram a ser muito frequentes.

Pontos, curativos com fitas adesivas, tudo causava séria rejeição e urticárias.

Em 2008 ingressei na faculdade de tecnologia de alimentos, passando a ter muito mais contato com alérgenos alimentares e comendo com maior frequência castanhas, uvas e kiwis, típicos da região onde fui morar para estudar.

Muitas crises fortes por muito tempo me levaram, em 2008, a imunoterapia também.

Sabendo-se comprovadamente por testes de contato de outras tantas alergias que eu apresentava, foram feitas as vacinas, todas ocasionando novas crises, que depois esclareceu-se que foram devido ao uso de seringas com êmbolos de borracha e frascos com tampas de borracha, além da contaminação das luvas durante todo seu processo de manipulação em laboratório.

Anos de tortura e falta de compreensão.
De 2009 à 2010 passei por mais dez cirurgias oculares pelo glaucoma.

Fui removida por ambulância em duas vezes durante aulas práticas de laboratório e por diversas outras tive de me retirar por não suportar os sintomas. Durante as diversas vezes que fui aos atendimentos de urgência ou aos médicos que me acompanhavam, nunca era mencionado o termo “anafilaxia”, exceto pelo alergologista que passei a frequentar e recentemente havia feito diagnóstico de alergia grave. Desde a infância apenas vago com idas raras a consultas nesta especialidade que culminavam em medicação para controlar os sintomas manifestados, evoluindo de muitos anti histamínicos para o uso cada vez mais frequentes de corticoides. Foi necessário abandonar o curso de tecnologia de alimentos e procurar um alergologista após ter cinco anafilaxias seguidas em atendimento de emergência, após ser retirada inconsciente do laboratório onde pela primeira vez uma médica evidenciou e referiu que eu estava tendo anafilaxias e que a causa estava ali comigo ou no ambiente hospitalar, sendo enfática em me medicar e dar alta para que eu fosse para casa e tomasse banho e procurasse o alergologista. Até então, creio que eu nem mencionara ao alergologista ao qual havia ido em poucas consultas até então, estes episódios graves além da asma. Não fazia ideia sequer que estavam relacionados.

Eis que, em conversa durante consulta de revisão com o ginecologista desabafo: “Estou muito bem, mas estaria bem melhor se não fossem as alergias, não aguento mais estar constantemente em crise alérgica, já ter inchado e aumentado 20 quilos, ter de tomar corticoides em grandes doses e não saber o que fazer para reverter isso”. E, então, surge a conversa reveladora.

Esse, que além de ótimo ginecologista é uma pessoa maravilhosa, ao me observar e fazer alguma perguntas me revela que estuda as reações ao látex devido ao fato de ter alguém próxima à ele, também médica, que descobriu ter tal doença, e que passou e passa por transtornos semelhantes aos que eu passava. Com receio de invadir a especialidade alheia, me reencaminha ao alergologista para falar a respeito e se possível fazer exames de IgE.

Assim foi feito. O alergologista, agradecido pela ajuda do colega em nos mostrar um caminho até então não percebido inclusive pelo fato de se ter outros diagnósticos e esse não ser comum, me encaminhou aos exames e lá se confirma alergia ao caju e a banana, estabelecendo reação cruzada com látex e muitas outras coisas. Muitos exames foram feitos e reações diagnosticadas.

E aí, tudo parece finalmente ter um elo entre si, e não apenas o fato de ter um monte de doenças como se elas fossem isoladas.

Constatações

Tenho Glaucoma, mas esse agravou-se devido ao aumento da pressão intracraniana que ocorre durante as crises, acompanhando os edemas (inchaços).

Tenho acidez gástrica somente se ingerir Lactose e se consumir qualquer dos alimentos me causam alergias, caso contrário meu estômago vai muito bem (obrigada!) e sem uso de medicação.

Só tenho crises de asma e sucessivas pneumonias após contatos com látex ou outros alérgenos aos quais reajo.  Os problemas ginecológicos muitos foram em função de genética, de péssimo acompanhamento médico na época e gravidez precoce, e o abortamento decorrente da toxoplasmose parece ter sido o gatilho para tornar-me mais alérgica.

As diversas cirurgias agravaram a alergia ao látex por excesso de exposição, e a cada procedimento, me tornavam mais hipersensível.

Minha dieta, supernatural e orgulhosa por adorar tudo que é saudável, em especial tudo que sei hoje que não posso, também agravou bastante a situação.

Hoje procuro evitar tudo que descrevo mais adiante e que se sabe que me causa reação, e muito mais que ainda nem sei, e é quase impraticável estar fora de risco.

Tenho cuidados especiais devido à cegueira provocada pelo Glaucoma e agravada pelo aumento da pressão intracraniana gerada pelas crises alérgicas, e esses cuidados muitas vezes me expõe ao látex.

Tenho cuidados odontológicos a fazer impraticáveis e a dificuldade de nem poder usar creme dental.

Minha dieta é limitadíssima… mas tenho uma dieta a seguir.

E, principalmente, tenho a consciência sobre essas coisas, e isso faz toda diferença.

Sei com o que me medicar, consigo identificar mais facilmente a origem das crises para tentar evitar a reincidência, e melhorei consideravelmente minha qualidade de vida com o auxílio de bons médicos dispostos a se envolverem, embora muitos nem queiram me atender por não estarem dispostos às “novidades”, e assim estamos em busca de entender melhor essa “doença moderna” e buscar maneiras de lidar com ela.

Relação dos diversos sintomas pós-contato com diferentes alérgenos

(correlação entre grupo alergênico, tipo de contato, tempo de manifestação e medicação necessária).

1- Látex

1.1- Causa: contato por pele, mucosas ou inalação do látex, especialmente com o pó adicionado a borracha (talco de luvas, balões…).

1.2- Reações: anafilaxia, asma, laringite com edema de glote, dores oculares, inchaço, urticária, vermelhidão.

1.3- Tempo de manifestação: entre 6hs e de 12hs após o contato.

2- Frutas, Legumes, Verduras e Castanhas

2.1- Causa: ingestão ou contato com frutas, castanhas e outros alimentos. Sempre muito forte quando por castanhas e mandioca.

(Kiwi; uva, laranja, limão, pêssego, banana, morango, manga, caqui, melancia, moranga, brócolis, espinafre, mandioca, batata, alface americana, rúcula, radite, caju, nozes, castanhas, pinhão, amendoim, vinho, cerveja, refrigerantes, carnes com amaciante, chocolates e biscoitos contendo traços de castanhas, ginko biloba, soja…)

2.2- Reações: inchaço principalmente das vias respiratórias superiores, perda de consciência, dor intensa na cabeça, especialmente nariz e olhos, má digestão, azia, diarréia, dores abdominais, sangramento com fezes, sensação de colapso circulatório e congestão.

2.3- Tempo de manifestação: 15min. a 4 horas após a ingestão, ou em alguns casos imediatamente.

3- Fragrâncias.

3.1- Causa: fragrâncias em geral  de frutas, perfumes, xampus, cremes, produtos de limpeza, cera, tintas, sabões, lenha, cigarro, incensos, colas.

3.2- Reações: inchaço vias respiratórias superiores e rosto e queimaduras nas mucosas e pele, dor ocular, edema de glote, urticária, vermelhidão.

3.3- Tempo de manifestação: imediata

4- Tartrazina

4.1- Causa: ingestão ou inalação de corante amarelo tartrazina em alimentos, medicamentos, produtos de higiene e limpeza.

4.2- Reações: coceiras, tosse seca, bronco espasmos, acidez gástrica, má digestão, urticária, vermelhidão.

4.3- Tempo de manifestação: imediata

5- Sol, Calor, frio e Atividade Física

5.1- Causa: exposição ao sol ou manta térmica com infravermelho, calor, suor, caminhadas, bicicleta ergométrica, agitações.

5.2- Reações: vermelhidão, urticária, inchaço do rosto e vias respiratórias superiores, broco espasmos, edema de glote.

5.3- Tempo de manifestação: imediato ou até 2 horas.

6- Cloreto de Benzalcônio e demais conservantes

6.1- Causa: Uso de medicamentos e soro fisiológico contendo conservantes.

6.2- Reações: queima da mucosa, dor; inchaço; falta de ar.

6.3- Tempo de manifestação: imediata.

Observação sobre o Cloreto de Benzalcônio.
Esse conservante parece ter agravado muito a sensibilidade das mucosas, pois está presente em diversos (quase todos) colírios que usei na tentativa de estabilizar a pressão ocular e que sempre tiveram efeitos adversos, bem como em medicações inalatórias para rinite (especialmente Avamys) e tratamento para clareamento dental, todos tendo desencadeado reação extremamente fortes e com queimaduras em toda mucosa dos olhos, nariz, laringe e esôfago, evoluindo para crises severas de asma. Foi confirmada sala reação quando após retirada quase total de outras medicações fiz uso de soro fisiológico contendo o mesmo e a reação apareceu igual a quando em outros.

 

Produtos que Oferecem Risco Eminente

  • Filtros de água e nebulizadores;
  • Leites e derivados devido ao manuseio durante a ordenha;
  • Lingeries com elástico;
  • Meias;
  • Panela de pressão;
  • Produtos de limpeza;
  • Produtos e equipamentos odontológicos;
  • Luvas, camisinhas, garrotes, êmbolos de seringas, tampas de frascos, tubos balões, atilhos, e demais materiais de látex, principalmente de uso hospitalar, sendo o talco usado em alguns desses muito volátil, tornando a exposição perigosa devido a facilidade com que penetram nas vias respiratórias, além do contato;
  • Travesseiros e colchões;
  • Cosméticos, maquiagens e perfumaria, tudo que tem aromas tem ácido cítrico;
  • Margarina;
  • Refrigerantes e bebidas alcóolicas;
  • Secadores de cabelo;
  • Splits, ar condicionados e climatizadores que contenham borrachas no interior;
  • Controles remotos;
  • Fones e cabos elétricos;
  • Canetas com borracha;
  • Calçados e bolsas com borracha;
  • Adesivos, colas em geral;
  • Brinquedos;
  • Medicamentos e alimentos com aditivos em geral, muitos não informam nem mesmo a presença dos corantes;
  • Cuidado com as substâncias presentes e descritas apenas como “excipiente q.s.p.”;
  • Cuidado especial com ingredientes presentes em diversos tipos de alimentos e perfumaria, como ácido cítrico e gomas arábica, guar e xantana;
  • Cuidado com a manipulação de alimentos por luvas de látex, inclusive pão;
  • Cuidado com os traços das substâncias alérgenas em alimentos, pois a Anvisa não obriga a informação de tais traços, exceto leite e glúten;

 

  Alimentos que Oferecem risco Eminente (por ordem de gravidade dos sintomas)

  • Castanhas, de qualquer tipo (nozes, amendoim, pinhão…);
  • Alho;
  • Chocolates e biscoitos que contenham traços de castanhas, amendoim, nozes e assemelhados;
  • Frutas em geral, especialmente uva, banana, kiwi, melancia, laranja, limão, abacate, pêssego e morango;
  • Mandioca;
  • Brócolis, espinafre, rúcula, radite e assemelhados;
  • Batata inglesa;
  • Soja;
  • Gengibre
  • Grãos integrais, cereais;
  • Manjericão, sálvia, alecrim, erva cidreira, hortelã, ervas aromáticas no geral;
  • Mostarda;
  • Aromatizantes naturais ou artificiais;
  • Produtos manipulados em locais que manipulem qualquer dos anteriores e que possa haver contaminação pelos mesmos;
  • Cebola;
  • Alface;
  • Pepino;
  • Ovo;
  • Linhaça;
  • Salsa;
  • Milho;
  • Aditivos (sulfitos, corantes, emulsionantes…).

 

Condutas a partir do diagnóstico

1.Exclusão total do látex.

2.Estabelecimento da dieta.

É fundamental estabelecer a dieta segura da forma correta, que sempre que possível envolve o auxílio de profissionais além do alergologista como nutricionista, gastroenterologista, psicólogo e os que forem necessários e envolvidos.

A principal dica para chegar a dieta segura é ter consciência de que alérgicos ao látex com reações cruzadas à alimentos tem dieta individualizada e podem reagir a muito mais alimentos dos que os relacionados em estudos até o momento portanto quando não há estabilidade com remissão dos sintomas pode ser necessário permanecer em dieta extremamente restrita mas segura por período a ser determinado em conjunto com os profissionais envolvidos e também com o auxílio deles, realizar de forma segura as reintroduções de um alimento por vez, respeitando prazos para observar reações até chegar a uma dieta diversificada segura. O contrário, retirar alimentos sem a certeza de a quais a pessoa reage além de tornar o processo difícil e confuso devido as várias formas de reações de alérgicos com Síndrome Látex  Alimentos – SLA pode levar a exclusões desnecessárias tanto quanto sensibilizar cada vez mais por insistir em ingerir alimentos que causam reações apenas por não os considerar relacionado ao látex.

Passei, para isso, quatro anos comendo apenas derivados de farinha de trigo branco a e carnes, após descobrir reagir ao arroz, fazendo testes de provocação oral (TPO) aliados a exames, para enfim chegar aos alimentos que seguem.

Dieta de Daisy Fortes

  • Cenouras;
  • Cacau;
  • Café;
  • Carnes;
  • Coco;
  • Derivados de cana de açúcar;
  • Moranga capotiá;
  • Farinha de trigo branca;
  • Pimentas;
  • Batata doce;

Lembrando que esta dieta é segura para mim e não significa ser para outros pois cada organismo estabelece reações cruzadas diferentes, o que é um dos maiores desafios para pessoas com SLA pois cada um terá de descobrir sua própria dieta

3. Cuidados gerais.

É preciso repensar a nossa existência para viver com alergia ao látex quando se está muito sensibilizado, e se possível, antes de chegar a tanto.

Algumas medidas que podem inicialmente parecerem muito radicais podem ser o detalhe que faz toda diferença na qualidade de vida.

Muitas dicas essenciais para exclusão do látex como cuidados com medicamentos, aromas, roupas e ambiente em geral, além de receitas e protocolos para atendimentos de saúde estão disponíveis no blog http://www.slabrasil.com  e são postadas aqui no Facebook https://www.facebook.com/sindromelatexalimentos/ .

4. Tratamentos, medicações e condutas.

Durante os últimos cinco anos fiz uso de medicação para controle da asma grave mediada por IgE, e com isso as reações anafiláticas também diminuíram bastante, porém houveram muitos contratempos com o uso desta medicação, que trouxe inúmeros e graves efeitos colaterais e recentemente tive anafilaxia a própria medicação, precisando descontinuar o tratamento e estando agora mais sensibilizada e com os efeitos colaterais acumulativos de tudo este processo.

É fundamental estar consciente de que a alergia ao látex é adquirida pela exposição excessiva e/ou precoce (atenção às crianças! O número de crianças diagnosticadas tem aumentado muito e a exposição precoce as luvas de látex no ambiente hospitalar está entre as principais causas.), progressiva e até o momento não há comprovação de dessensibilização,  tratamento ou curas possíveis, embora hajam especulações em parte da Europa para dessensibilização só o que houveram até então foram registros de reações graves em grande parte dos pacientes envolvidos nas tentativas e relatos vagos de possíveis melhoras. Tais experimentos estão desaprovados pela FDA e pela comunidade médica em geral.

 

Daisy Fortes, 20 de junho de 2018.

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Reações ao Látex

Dificilmente se pensa em fotografar uma crise, especialmente as mais graves.

Além disso, os sintomas piores são sentidos e algumas vezes pouco ou nada visíveis. Mas alguns registros podem dar uma ideia do que as reações causam. Muitas pessoas desconhecem os perigos do látex, eu também o desconhecia. Passei 40 anos sofrendo de patologias diversas mal diagnosticadas devido a esta ignorância.

Mas aqui está a oportunidade de muitos entenderem que o látex adoece e pode matar pessoas, especialmente quando em luvas e balões (bexigas), quando libera partículas no ambiente que podem ficar até 3 dias suspensas e atingir mais de 500 metros.

Perdi minha visão, tenho sequelas e comprometimentos por isso. Vivo em clausura e me alimento com apenas 8 itens, mas consigo me resolver com isso e sou muito abençoada pelas pessoas com quem convivo e pelas inúmeras oportunidades que já vivi.

Porém, existem crianças, muitas, cada vez mais, com esta síndrome. Crianças que precisam ter amigos, estudar, curtir uma vida inteira pela frente, e a sua ignorância em insistir em usar balões de látex por tudo, ou de não excluir de vez o uso de luvas de látex no seu ambiente de trabalho, pode por em risco a sua vida e a de milhares de pessoas.

Além do enorme sofrimento, a Síndrome Látex Alimentos – SLA pode levar a morte em instantes por uma reação anafilática, como aos poucos, pelos agravamentos das crises e uso excessivo de medicamentos para amenizar os sintomas. A grande maioria das pessoas com SLA reage a muitas coisas, sendo as mais perigosas e que atingem o maior número de pessoas são, além do próprio látex, ceras, perfumes, tintas, óleos essenciais e alimentos como castanhas, frutas e mandioca.

Quer saber mais? Acompanhe a página no Facebook e o blog http://www.slabrasil.com.
Saia da ignorância, DIGA NÃO AO LÁTEX!

Como acontece

Entro em algum ambiente aparentemente livre de látex ou alimentos – ou pessoas chegam à minha casa – e tudo parece agradável Tudo inicia muito rápido ou, em algumas ocasiões, horas depois.

Às vezes sinto apenas sono incontrolável. Outras vezes começa com diarreia intensa.
Na maioria das vezes, meu coração dispara. Um rubor agonizante toma conta de meu rosto, olhos, garganta, enquanto os ouvidos incham instantaneamente e doem.

Tem vezes que começa logo por broncoespasmos e o pulmão ameaça parar de repente. De comum em todas as maneiras que inicia é a sensação eminente da morte. A energia vital parece escorrer de mim e resta apenas agonia.

Em alguns instantes, alguém terá de perceber e me salvar injetando adrenalina. Deveria ter comigo adrenalina auto injetável, mas esta infelizmente não está disponível no Brasil e não posso custear a importação, pois são inúmeras às vezes em que preciso. Então resta a sorte de estar com alguém que saiba o que e como fazer, dosar a adrenalina da ampola na dose certa e aplicar com agilidade, sem hesitar.

Feito isso, em instantes volto a raciocinar e respirar, porém todo impacto da crise levará 21 dias para passar. Durante este período, muita medicação ainda será necessária, muitos cuidados para que as inflamações das mucosas não evoluam para pneumonia ou outros, muita dor – especialmente da cabeça e ocular – terá de ser suportada.

Do que estou falando? ANAFILAXIA.

Quem nunca sentiu ou presenciou talvez tenha ouvido falar em anafilaxia ou em choque anafilático e relacione com reações a anestesias e medicamentos. Mas ela pode ocorrer por diversos motivos, em geral, uma grave reação alérgica.

Por definição, anafilaxia ocorre quando dois ou mais sistemas do organismo, sendo um deles respiratório ou vascular, entram em colapso. Pessoas alérgicas ou com doenças auto imunes podem iniciar o quadro de anafilaxia por diferentes motivos e diferentes sintomas. No caso das pessoas com Síndrome Látex Alimentos – SLA, pode ocorrer apenas por estar no mesmo ambiente que produtos de látex – especialmente as luvas e balões que liberam partículas muito voláteis no ar e que inaladas vão direto aos pulmões – como também por ingerir ou estar no mesmo ambiente de diversos alimentos, perfumes, tintas e muitos outros, dependendo da sensibilização de cada um.

Mas o importante aqui é dizer mais do que como acontece, é dizer que ANAFILAXIA PODE DEIXAR SEQUELAS E ATÉ LEVAR A MORTE. Não são simples sensações, são sintomas graves, urgência médica e devido ao grande aumento de casos de pessoas alérgicas em todo mundo, temos cada vez mais notícias de pessoas que morrem por anafilaxia.

Aquele conhecido que você ouviu falar que morreu por picada de abelha, aquele outro que passou muito mal quando precisou anestesia, tem aquele também que quase morreu ao comer camarão… todos eles sofreram anafilaxia.

Seja solidário e evite expor as pessoas a coisas que podem causar tanto sofrimento. É importante evitar balões de látex em festas, luvas de látex em seu trabalho ou ambiente familiar, não oferecer alimentos às crianças sem a permissão dos pais. Pense no próximo como em você, afinal, alergias podem ser adquiridas em qualquer momento da vida, ninguém está livre.

Como acontece o choque anafilático

Descobri que sou alérgica ao látex e a diversos alimentos, e agora?

Daisy com máscara de proteção
Foto do rosto da Daisy (cabelos escuros e curtos até os ombros e olhos castanhos), usando uma máscara de proteção na cor rosa, cobrindo seu nariz e boca.

A grande maioria das pessoas não sabe exatamente quais são as consequências das alergias mais graves. O diagnóstico de alergia, especialmente quando envolve risco de asma e/ou anafilaxia, não é fácil, e algumas pessoas passam muitos anos com problemas de saúde diversos sem conseguirem ligar isso à causa.

Mas a cada dia, mais pessoas vêm sendo diagnosticadas. Os dados mundiais apontam o crescimento de alergias, especialmente alimentares, e com o diagnóstico vem também toda uma nova realidade, seja de tratamentos ou em casos como da Síndrome Látex Alimentos – SLA para os quais não há tratamento ou cura, muitas exclusões.

Por onde começo?

Bem, se você reage apenas ao látex em si, comece eliminando tudo de mais óbvio de seu contato ou inalação como luvas e balões, e passe a analisar absolutamente todo seu dia a dia. Acredite, anos depois você ainda estará percebendo coisas em que o látex está escondido a sua volta.

Roupas íntimas, calçados, travesseiros, colchões, eletrodomésticos, botões de controle remoto, creme dental (goma xantana), escova de cabelo, secadores, ar condicionado, e a lista pode chegar a cerca de 300 mil produtos. Então você terá de ficar atento e aos poucos vai percebendo e descobrindo alternativas para o que há (algumas coisas como o secador de cabelos nunca descobri alternativa). O que não tiver como excluir – mas pode ser isolado do contato e da inalação, como controles remotos – pode ser revestido com filme plástico.

E o que não posso comer?

Bem, a maior dificuldade na SLA ainda é a identificação da dieta de cada um, pois não há um grupo específico de alimentos a serem evitados. Cada pessoa tem as chamadas reações cruzadas, quando o organismo do alérgico se confunde e reage também a alimentos que contenham as mesmas proteínas do látex ou proteínas semelhantes. Sabe-se, também, que não há exames com 100% de precisão para diagnóstico de alergias, que costuma se confirmar pela avaliação clínica. Portanto, a única maneira eficaz de chegarmos a uma dieta segura é a DIETA DE EXCLUSÃO com REINTRODUÇÃO CAUTELOSA dos alimentos, um a um, de preferência com apoio e acompanhamento de seu alergologista, nutricionista e demais profissionais que possam lhe orientar.

É importante estabelecer uma dieta o mais restrita possível até que se estabilize por ao menos 21 dias para começar as tentativas de reintrodução. Alguns reagem até ao iodo do sal, então nada de muitos condimentos ou temperos, pois eles podem ser os vilões.

Evite os alimentos de maior risco como banana, abacate, papaia, castanhas, azeitonas, frutas cítricas e mandioca. Comece tentando pelos menos descritos com relação com látex. De acordo com sua sensibilidade, teste primeiramente passando parte dos alimentos nos lábios, cozinhando bem, ou diluindo com bastante água, aumentando as quantidades ou a ingestão conforme tolerância. Caso haja reação, espere no mínimo 2 a 3 semanas para tentar outro alimento, dando tempo para seu sistema imune se refazer da reação.

Tenha sempre as medicações prescritas por seu médico. As crises podem surgir a qualquer momento e uma vez que você tem conduta, quanto antes iniciar menor serão as reações. Não espere a crise evoluir, algumas pessoas não possuem reações imediatas e elas podem evoluir em minutos, horas ou mesmo dias.

As reações podem, também, se darem pelas medicações, e neste caso é um pouco mais difícil identificar, pois o medicamento faz seu efeito chegando a haver melhora, porém a crise volta em seguida ou se mantém. É necessário pesquisar possíveis contaminações por látex na produção dos medicamentos e saber detalhadamente os componentes e excipientes, pois muitos deles causam reações cruzadas com o látex. Se você tem um farmacêutico de confiança que possa manipular medicamentos em ambiente livre de látex, conferir a origem das substâncias e usar apenas celulose microcristalina como excipiente, isso pode ajudar muito.

Aprenda a se perceber. Com o tempo você começa a identificar quando as reações são por algo que você ingeriu, inalou ou tocou. Esteja atento, isso pode causar confusões e exclusões desnecessárias da dieta, pois muitos de nós são muitos sensíveis a qualquer molécula dos alérgenos, que podem estar nos ambientes ou nas pessoas que nos rodeiam.

É muito comum entre pessoas com SLA a reação às fragrâncias. Óleo de laranja e outros cítricos são usados como fixadores em cosméticos, perfumes, produtos de limpeza entre outros, e são feitos para serem voláteis, o que para os mais sensíveis pode levar a crises inclusive gastrointestinais muitas vezes atribuídas a ingestão de alimentos.

Saiba que é possível sim estabilizar sem depender do uso constante de medicamentos, e essa é a única maneira de controlar a SLA, pois a cada contato com alérgenos o sistema imune se arma mais e a sensibilidade aumenta, então como temos muito a evitar, se torna impossível na prática evitar o aumento da sensibilização, mas podemos melhorar muito a qualidade de vida e evitar uma piora com maiores proporções.

Para saber mais, acompanhe nosso blog e nossa página no Facebook.

Até mais!

A sombra do invisível

Quando perdi a visão, o glaucoma foi agravado bruscamente pelas graves reações alérgicas que eu tinha, e passei a elaborar em mim algo que chamava de “proteção emocional para o preconceito”.

Fui mãe solteira aos 15 anos e por muitas vezes sofri quieta. Não que alguém pudesse me convencer que a sua desaprovação fosse minha, pois a vida me fez “Fortes” não foi à toa. Então percebi que o preconceito era uma maldade algumas vezes velada e noutras explícita, mas sempre cruel e que adoece quem o gera e ao mundo, e sabia que atingia, ali, um nível a mais da tal “desaprovação alheia”, pois agora era uma mãe solteira, cega e não queria apenas que a tristeza que me invade quando as pessoas são más baixasse o meu tão agradável padrão de energia que tanto mantenho por disciplina.

Foto da sombra de um homem projetada na calçada. O homem que projeta a sombra não aparece na imagem, somente seus tênis.
Foto da sombra de um homem projetada na calçada. O homem que projeta a sombra não aparece na imagem, somente seus tênis.

Encarar o preconceito de frente requer conhecê-lo, tentar entender onde e por que se forma e perceber que, muito além do fato de não enxergar, havia um preconceito ainda maior por ter tido a graça de ter ótimos cirurgiões que fizeram meus olhos parecerem “normais”, e isso era ofensivo para alguns.

Ouvi (e ouço) muitas pessoas suspeitarem de que não posso ser cega por ter ótima desenvoltura, cozinhar, usar mídias digitais, olhar na direção dos rostos e dos sons e este foi um ponto importante a entender: As pessoas temem o que não entendem.

Já ouvi coisas como: -Não pode ser cega, olha como o olhos dela são normais!
Ou: – Como seria tão feliz se fosse cega de verdade.

Parece até engraçado, mas é triste.

A descoberta da Síndrome Látex Alimentos- SLA me mostrou, então, mais uma face do preconceito. As pessoas não temem só o que não entendem, temem ainda mais o que não enxergam. Não cabe em suas mentes limitadas e acomodadas tentar entender ou no mínimo aceitar que cada um tem suas limitações e que se não enxergam a pessoa passando mal ou se não veem o látex no ar ele não pode afetar ninguém. Enfim, não enxergam além do que querem enxergar.

Medo? Bem, os medos se combatem com o conhecimento e a aceitação. Maldade? É só ter mais amor no coração. Comodismo? Esse ainda é o que fala mais alto, pois se o problema não atinge minha zona de conforto, deixa longe de mim e não peça que eu seja solidária por que não me diz respeito.

Foto da sombra de um homem projetada em um espelho d'água. O homem que projeta a sombra não aparece na imagem, somente seus tênis.
Foto da sombra de um homem projetada em um espelho d’água. O homem que projeta a sombra não aparece na imagem, somente seus tênis.

Pois bem, o invisível pode formar sombras terríveis. O que seus olhos não enxergam, sua mente não aceita e seu coração rejeita pode provocar uma sombra tão grande que irá cobrir a luz de quem ainda não sabe onde ela está.

Muito mais que seus olhos, abra seu coração e sua mente. A luz que sai retorna.

Depoimento de Daisy Fortes

Foto em close do rosto de Daisy sorrindo para a câmera e usando óculos de Sol.
Foto em close do rosto de Daisy sorrindo para a câmera e usando óculos de Sol.

Desde criança tive várias reações do que hoje sei serem alérgicas.

Barriga estufada, vômitos, diarreias, sinusite e otite eram frequentes. Aos 9 anos, outros indícios de alergias mais severas surgiram. Tive reação anafilática ao iodo e passei a ter muito mais enxaquecas, o que fez meus pais me levarem a vários médicos que concluíram que não havia nada além de enxaqueca e que poderia ser emocional ou mesmo eu estar valorizando para chamar atenção.

Os sintomas foram se agravando e, além de diversas cirurgias ginecológicas e um aborto espontâneo, passei por duas cirurgias de hérnia de hiato, na tentativa de parar de vomitar (pois tendo 1,70m de altura pesava, aos 29 anos, 43,5 kg). Um ano após o abortamento, tive crise de asma grave e fui surpreendida por diagnóstico de asma, pois não havia tido nenhum indício anteriormente, embora tivera pneumonias frequentes, principalmente em períodos pós-cirúrgicos.

Os anos se passavam e a saúde em geral cada vez pior. Nesta época fui diagnosticada com glaucoma. A pressão dos meus olhos era altíssima e todos os colírios testados pioravam o quadro e aumentavam as reações alérgicas, o que mais tarde descobri ser pelos conservantes aos quais também tinha alergia.

Na tentativa de estabilizar a pressão intra ocular que só piorava e diminuir as dores terríveis nos olhos e cabeça, passei por 8 cirurgias nos olhos.

Passei também por câncer inicial de mama e colo do útero, o que me levou a fazer mais cirurgias e 3 quimioterapias.

Aos 29 anos, tive um coma hipoglicêmico e consequente AVC isquêmico. Foram 4 dias em coma e 3 meses de internação para recuperar movimentos do lado direito do corpo e para tentarem descobrir por que eu tinha cerca de 4 convulsões por dia após me alimentar.

Concluíram que eu tinha intolerância à frutose e sacarose e que dieta de açúcares e frutas deveria resolver. Assim me deram alta.

Retirei totalmente o açúcar, o que me deu certa estabilidade, pois o que sempre gostei de doce é chocolate e com a retirada dele retirei também as castanhas que vêm junto (sejam adicionadas ou em traços) que vim a saber ser o alimento que mais me causa reações alérgicas. Mas mantive algumas frutas, pois sempre gostei muito de frutas e não estava tendo mais convulsões. Passei a ter dieta muito regrada e natural por receio de nova hipoglicemia, mas edemas, tosse seca crônica, asma e anafilaxias aumentavam. Aos 31 anos fiquei cega pelo glaucoma que era agravado pelas reações alérgicas ainda não identificadas.

Aos 37 anos mudei de cidade e, aos poucos, de médicos. Ingressei em nova faculdade e comecei a piorar muito. Cursava tecnologia de alimentos e aulas em laboratório, bem como visitas as indústrias de alimentos desencadearam dores insuportáveis novamente na cabeça e olhos, e a pressão intraocular era cada vez mais alta. Alguns desmaios e asma grave, e o médico me proibiu de prosseguir no curso as vésperas da minha formatura. Faltava o estágio, mas ficou muito claro que não poderia frequentar mais aqueles ambientes. Muitas remoções de ambulância para o hospital e mais 10 cirurgias oculares para tentar suportar a dor, e só piorava.

Então, a pessoa maravilhosa que eu havia escolhido (na sorte!) para ser meu ginecologista, me observando e conversando amigavelmente em consulta de rotina, levantou a hipótese de alergia ao látex. Levei o assunto ao alergologista que me acompanhava – também a pouco tempo, devido a mudança de cidade -mas que havia sido o que mais chegou perto de descobrir o que eu tinha e havia iniciado tratamento de imunoterapia para as demais alergias então diagnosticadas. Fizemos exames e avaliações clínicas, e o diagnóstico enfim veio: eu tinha alergia ao látex com reação cruzada a alimentos.

De início os exames indicaram reações fortes às castanhas, algumas frutas e o milho que, desde a infância, me fazia muito mal. Conforme as exclusões seguiram sem que houvesse melhora e as anafilaxias foram sendo mais frequentes (chegando a 4 ou 5 por mês mesmo com uso maciço de corticoides) precisei radicalizar na dieta e passei 3 anos quase só a base de carnes e trigo, tentando reintroduzir outros alimentos. Cuidados extremos quanto ao ambiente também tiveram de ser tomados. Nada com látex por perto, nada com perfumes e muitos mais.

Com isso tudo e o uso da medicação Omalizumabe, consegui melhoras impressionantes. Desde a primeira aplicação do Omalizumabe, já com todos os cuidados e dieta, houve melhora da tosse e da asma. As anafilaxias só pararam com 2 anos de medicação e assim pude retirar o corticoide de uso fixo que me deixou sérias consequências.

Não há cura até o momento, nem para cegueira por glaucoma, nem para Síndrome Látex Alimentos- SLA, como batizei pelas conclusões dos 5 anos em que venho estudando muito esta alergia. Tratamentos convencionais não se aplicam e mesmo medicamentos comumente usados por outros alérgicos podem causar reação em quem tem SLA, pois cada pessoa reage a coisas diversas e diferentes.

Consegui, há alguns meses, chegar a uma dieta de 9 alimentos, todos orgânicos, sem aditivos e livres de traços, e tive um ano bem mais estável. Porém, a cerca de 4 meses, as anafilaxias voltaram e a dose do Omalizumabe terá de ser revista.

Vivo quase em clausura. As pessoas, para conviver comigo, têm de manter vários cuidados e com isso consigo ficar muito bem no geral, sem medicações para estômago, rinite, asma, olhos, nada contínuo, apenas o Omalizumabe.

Estudei muito, fiz contatos mundo a fora com outras pessoas com alergia ao látex, muitos ainda chamam de alergia látex frutas, síndrome látex frutas vegetais, síndrome látex frutas vegetais pólen ou outros nomes semelhantes, mas o que se percebe de fato é que todas as pessoas com alergia ao látex que continuam se expondo a ele, pioram e estabelecem reação a alimentos de todos os tipos e a muito mais coisas, como se a imunidade se desordenasse cada vez mais.

Então criei uma página no Facebook com nome Síndrome Látex Alimentos – SLA e um grupo fechado. Comecei a encontrar mais e mais pessoas, muitas crianças com os mesmo sintomas e dificuldades de diagnóstico e conduta e perceber que muitas pessoas têm SLA e não sabem. E pior, nem os médicos a reconhecem por que ignoram dizendo ser rara, o que em 3 meses de grupo fechado os 60 casos que surgiram, bem como os dados de outros países, provam ser um grande engano.

A Síndrome Látex Alimentos – SLA não é rara, é apenas ainda pouco conhecida e diagnosticada. Qualquer pessoa pode desenvolver, em qualquer momento da vida, reações ao látex e alimentos e a utilização do látex em hospitais e indústrias de alimentos pode matar muitas pessoas.

Leia, informe-se, curta nossa página (e agora este blog), compartilhe estas informações pois o diagnóstico ainda é um grande desafio, e a conduta outro ainda maior.

 

Depoimento de Pietra Rosolen Marinho

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Foto de Pietra sorrindo ao lado de sua mãe.

Pietra Rosolen Marinho, hoje com 8 anos, nasceu prematura de 30 semanas. Ficou internada na UTI por 30 dias e nesse período foi muito exposta ao látex. Já na UTI Neonatal faziam chupeta de luva de látex para estimular sua sucção.

Quando saiu da UTI, seus problemas se agravaram. Ela vomitava muitas vezes ao dia, chorava muito para ser alimentada, até que começou a se recusar a comer. Então, suas internações começaram a ser muito frequentes e, em todas as internações, colocavam sondas nasointerais de látex para que ela pudesse se alimentar e as fonoaudiólogas estimulavam sua sucção com luvas de látex. Enfim, eu desconhecia completamente que o látex era um grande vilão e que causava alergias e por isso nunca sequer questionei o seu uso em minha filha. Se eu pudesse imaginar as consequências disso, jamais alguém teria encostado na minha filha com essas luvas!

Foram dois anos de muita luta e muitas internações, e Pietra sempre muito estimulada com as luvas de látex em sua boca para que pudesse se “dessensibilizar” – como diziam as fonoaudiólogas. Nesse período, ela também passou por duas cirurgias.

Aos 3 anos de idade ela finalmente foi à escola, até então, apesar de muitas tosses noturnas, eu jamais desconfiei de que ela tivesse qualquer tipo de alergia. Até que, durante uma festinha da escola, a professora desceu com ela completamente inchada e com a respiração difícil, e corremos para o hospital. Ela foi medicada com adrenalina. Eu fiquei apavorada, nunca havia visto um quadro daqueles e até então não sabia nada sobre alergias, visto que não sou alérgica a nada. Imaginei que ela tivesse alergia a algum corante, jamais imaginei que um inofensivo balão fosse capaz de provocar uma reação tão horrível na minha filha que poderia inclusive tê-la matado se não fosse prontamente atendida.

Procurei um médico alergologista e encontrei a Dra. Martha Moretti (que a acompanha até hoje) e, já na primeira consulta, na anamnese, ela desconfiou da alergia ao látex. Para mim foi um choque, porque jamais pude supor que o látex que foi tão utilizado por profissionais da área de saúde pudesse causar um estrago tão grande na qualidade de vida da minha filha.

Por meio de exames de sangue, sua alergia ao látex foi confirmada. Mas o pior estava por vir, pois eu jamais imaginava que essa alergia provocava alergias cruzadas com tantos alimentos tidos como super saudáveis, porque a proteína do látex é muito semelhante a de muitas frutas, verduras, castanhas, grãos, e uma vez sensibilizado ao látex, as chances de reações cruzadas são muito grandes. E o pior: a alergia ao látex é uma alergia adquirida 100% por exposição, mas 0% curável, sendo que, a cada exposição, essa alergia vai aumentando, podendo chegar a situações assustadoras como de algumas pessoas que sequer suportam partículas de látex no ar e não podem ingerir quase nenhum alimento, como é o caso da Daisy Fortes, que criou a página no Facebook, “SLA- Síndrome Látex Alimentos”, e que está batalhando pela criação de uma associação para que essa alergia possa ser divulgada para que as pessoas se conscientizem que o látex adoece as pessoas e para que futuramente possamos aboli-lo dos hospitais, consultórios dentários, manipulação de alimentos, festinhas infantis (balões) etc.

Tenho que ter muito cuidado com minha filha, porque além do látex ela já tem reação cruzada com banana, manga, coco e maracujá, sendo que com o maracujá ela já teve uma reação alérgica gravíssima, tendo inclusive que utilizar adrenalina.

Na escola em que ela estuda, todos estão cientes de sua alergia. Deixo com a coordenação e com a professora um laudo médico atestando sua alergia e a necessidade de ser medicada em caso de reação, inclusive deixo os medicamentos necessários na escola.

Minha filha faz basquete, mas as bolas são de látex, então tive que comprar uma bola de couro para que ela pudesse praticar com segurança o esporte que tanto ama. Os cuidados são diários, porque o látex está presente em mais de 40 mil produtos, então tenho que estar em alerta constante, verificando sempre se as roupas têm elásticos, o material escolar, os brinquedos, os locais onde vamos comer. Tenho que verificar o tipo de luva que é utilizado no restaurante, porque muitos estão usando as luvas de látex na preparação de alimentos, o que é extremamente perigoso, porque o látex entra no alimento podendo matar uma pessoa,dependendo do grau de sensibilização dela. Tenho que verificar se os supermercados, hortifrutis e açougues estão utilizando as luvas, enfim é uma loucura total!

O meu grande medo é quando tenho que levá-la ao hospital, porque infelizmente é o local menos seguro para ela. O látex está no ar. A cada retirada de luva de látex, suas partículas ficam suspensas por até 3 dias no ar e, embora ela não esteja sensibilizada ao ponto de reagir ao látex no ar, a cada exposição a sensibilização vai aumentando.

Aqui em Macaé os hospitais não possuem salas látex-free, e os profissionais em geral desconhecem a existência dessa alergia. Quando eu comunico, não dão muita importância e sequer existem luvas de vinil ou nitrílica para que ela possa ser atendida com segurança. Então tenho  sempre que levar luvas e garrotes apropriados para que ela possa ser atendida  com um mínimo de segurança. Mas o desconhecimento é tanto que muitas vezes quando impeço de tocarem nela com luvas de látex o profissional tira na hora na frente da minha filha as luvas de látex e isso já provoca alergia nela.

Uma vez ela foi internada na Unimed, e embora eu tenha direito a um quarto individual, ela teve que dividir com outro paciente e foi muito difícil, porque as pessoas já entravam com as luvas no quarto, até que consegui um quarto para ela e fixei um cartaz na porta informando sua alergia, mas mesmo assim as faxineiras entravam no quarto com luvas de látex. A pessoa que entregava comida também, enfim.. enquanto a existência e gravidade dessa alergia não chegarem a conhecimento público, muitas pessoas continuarão adoecendo com o látex e quem já adquiriu vai piorar.

É uma alergia muito difícil de conviver, porque é desconhecida por quem deveria conhecer que são os médicos. Fico apavorada quando viajo com medo de algum acidente na estrada por causa do socorro, tenho pavor de estar inconsciente e de alguém tocar na minha filha com luvas e equipamentos de látex, então em todas as viagens ela utiliza um broche identificando sua alergia ao látex, e no meu carro sempre tem luvas, garrote e laudo médico identificando sua alergia, e um procedimento do hospital Albert Eisnten informando como proceder com um paciente em centro cirúrgico alérgico ao látex. Mas mesmo assim me sinto muito angustiada, por saber que, se ela precisar de uma cirurgia de emergência, para ela pode ser fatal, por não haver sala látex-free em nenhum hospital  de Macaé e pouquíssimas salas látex-free no Brasil.

Na minha bolsa sempre tenho adrenalina, corticoide e anti-histamínico.

Em consultórios dentários também é muito complicado, porque além das luvas tem outros materiais de borracha, e também não encontrei em Macaé nenhum dentista preparado para atender um paciente alérgico ao látex. Quando a levo ao dentista, peço para que ela seja atendida na segunda-feira no primeiro horário, para que a sala não esteja contaminada com látex. E levo suas luvas de vinil também.

É uma luta grande, principalmente pelo desconhecimento!

O látex adoece as pessoas. Segundo os dados da associação da Califórnia, é o segundo responsável pelos casos de anafilaxias em centros cirúrgicos. O diagnóstico muitas vezes é difícil pelo desconhecimento dos profissionais. Mas não é uma alergia tão rara como muitos pensam e está aumentando a cada dia. No nosso grupo do Facebook, diariamente aparecem pessoas com essa alergia e estamos nos ajudando mutuamente, porque infelizmente nem os médicos e nutricionistas estão muito preparados para ajudar os pacientes que possuem essa alergia.

Neste ano nossa associação sairá e assim poderemos divulgar melhor.

Depoimento Tiago José Matorizen

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Foto de Tiago sorrindo e fazendo o símbolo de coração com as mãos.

Nome: Tiago José Matorizen

Data de nascimento: 08/04/2009

Responsável declarante: Cristiane Rodrigues do Amaral (Mãe)

Quais sintomas apresenta?
Gástricos – dor ao deglutir, vômitos em jatos, diarreia com assaduras e distensão abdominal ou constipação.

Pele – urticária e dermatite de contato

Outros sintomas – dores de cabeça, coceira e dores nos olhos, rinite, sinusite, otite, bronquite, tosse seca crônica.

Descrição
Tiago apresenta IgE específicos positivos para todos grãos, cereais, frutas leguminosas, oleaginosas, látex todos com dieta de exclusão de onze meses refeitos e confirmados novamente. Em endoscopia, achados mostram gastrite crônica leve, duodenite crônica leve e acantose na mucosa do esôfago.

Alimentos que consideram seguros: batata, cenoura , beterraba, abóbora

Alimentos que sabe serem perigosos: todos grãos (inclusive arroz), frutas, mandioca carne vermelha, leguminosas e castanhas.

Como foi diagnosticado?
Sem saber mais a quem recorrer para diagnósticos, comecei a ler relatos onde vi que o quadro que mais se encaixava era o de Daisy Fortes. Fiz alguns exames por conta própria onde minhas dúvidas foram confirmadas por IgE positivo alto para látex e por avaliação clínica também comprovando, pois diante da dieta de exclusão estabilizou pela primeira vez em sua vida.